Só ficam as lembranças

O dia de hoje ficou marcado. Às seis e meia da tarde recebi uma ligação triste. Minha avó havia morrido. Fiquei sem reação e com as pernas bambas. Não há nada mais definitivo que a morte. Contra ela nada se pode fazer.

Minha avó é a mulher mais corajosa que conheci em toda a minha vida. E forte. Teve dez filhos, treze partos, casou três vezes, ficou viúva todas elas. O primeiro marido conheceu aos 12 anos de idade. Se casou aos 13, depois de ter fugido de casa para encontrar com ele. No sertão do Ceará, onde ela nasceu, a vida começava cedo demais.

Minha avó saiu do Nordeste com os filhos no cólo, já viúva, disposta a não passar mais necessidades. Para cuidar deles, deixou de estudar. Até pouco tempo, rabiscava com dificuldade seu nome. Seu sonho maior era ter aprendido a ler e a escrever de verdade. Mas fez outras coisas da vida e não conseguiu passar dos cadernos de caligrafia para os livros de faculdade.

Desde que eu nasci minha avó morou comigo. Cuidou de mim quando era bem pequena, enquanto minha mãe trabalhava. Quando ganhei meu cachorro, aos 10 anos idade, era ela quem brincava com ele, junto comigo. Depois que me tornei adolescente, passou a se preocupar com minha vida amorosa, com um bom "partido" para eu me casar, em me ajudar a fazer um enxoval mesmo não entendendo minhas vontades de "mulher independente".

Certa vez, quando lhe contei sobre um romancinho que havia começado, ela me puxou na cama e me disse para ter cuiado. Afinal, as vezes a "carne é fraca" e a gente pode ceder à tentação. Ao invés de me passar sermão, apenas me aconselhou: "use camisinha". Isso faz quase quatro anos e a minha avó já tinha mais de oitenta. Na mente, continuava menina.

Minha avó é uma mulher corajosa. Nunca a vi se queixando da vida, reclamando de nada que não fosse aquela dorzinha no braço ou as injustiças sociais. Tinha hábitos simples. Gostava de reunir a família, mais do que tudo. Filhos, netos e bisnetos. Ficava felicíssima quando todos estavam em volta da mesa para comer sua dobradinha. Para mim, fazia feijão branco com linguiça apenas porque sabia que eu não gostava muito de seu prato preferido.

Minha avó adorava comer frango e tomar sopa. Cozinhou para a gente enquanto teve forças. Gostava de saber o sobrenome das pessoas para comentar se aquele era alguém de "família" ou não. Era seu jeito de demonstrar preocupação.

Minha avó queria que eu me casasse. Depois que deixou de morar na minha casa, há uns cinco anos, perguntava todos os dias sobre meus namorados. Ela tinha medo que eu ficasse sozinha, afinal, para quem se casou três vezes e criou 10 filhos, eu já estava perdendo tempo. Ela queria ir no meu casamento. Ela queria me ver feliz e esse era seu jeito de demonstrar isso.

Eu nem sei se vou me casar um dia. Mas ela não estará mais aqui para ver. Estou sentindo muito a sua falta agora. Ela era minha queridinha, minha vovozilda... e ria toda vez que eu chamava ela assim. Estou com saudades de levá-la na igreja, de sentir a maciez da sua pele.

Minha avó chamava Maria. E dela, tenho agora só lembranças e um guarda-chuva azul.

11 comentários:

Patrícia disse...

Oi Lucy!
Sei bem como vc esta se sentindo. Meus pais se separaram quando eu tinha apenas 1 ano, e eu e minha mãe fomos morar com meus avós, no interior de SP.
Minha avó foi minha mãe, amiga, companheira de viagens e aventuras.
Com ela aprendi que eu tinha que aorender de tudo na vida, pra nunca dizer que não sabia fazer nada! Ela dizia que era para eu não me casar... Falava: junta filhinha... junta que se der certo, depois vc casa.
Ela era especial. Pioneira em muitas coisas. Uma líder!
Fica tranquila que o tempo apazigua a saudade, mas a lembrança a gente guarda dentro do nosso coração pra sempre!
Beijos!!

Anônimo disse...

Lu, tô parando de tomar o meu remédio. Por conta disso estou ficando mais arredia e emotiva novamente. Fiquei sabendo da morte da sua avó agora, lendo o post, e estou com os olhos marejados. Muita, muita, contade de chorar, mas não posso fazer isso daqui da minha mesa no 4° andar. O seu texto está de arrepiar até a alma. Fique bem com as suas lembranças. Vc não deve vir para a editora hj, mas eu te ligo mais tarde pra ver como vc está.

bjos

Cris

Vanessa disse...

Lu, querida, como minhas avózinhas ainda estão comigo, não sei ao certo como você está se sentindo. Mas sei que não é fácil encarar a morte, porque ainda estou tentando ajudar meu namorado querido Deolindo, a superar o que houve com o pai dele. Sei que nada do que a gente disser pode resolver a situação ou te confortar, mas espero que você se sinta um "tiquinho" melhor ao saber que tem bastante gente do seu lado, querendo te ver bem, tá?
Um beijo grande e muita força!

Anônimo disse...

Lucy,toda a força do mundo pra vc nesse momento...
com certeza sua Vó foi uma pessoa realizada e feliz(mais feliz ainda pela neta q ela deixou pra passar coisas boas pra td mundo q como eu sempre visito o blog)...
A dor vai diminuir e a saudade aumentar.... mas a gente só sente saudade de quem era bom... então seja muito feliz pq era isso q sua ia querer...
bjo e muita força tá
Suellen

Lilian R. Paccagnella disse...

lucy, a missão das avós é esta mesma: ser mãe com açucar, apoiar as netas contra tudo e contra todos e quando elas se vão é o que nos tresta: lembranças.
dona maria contribuiu admiravelmente para a formação do que vc é: alegre, irreverente, excelente no que faz.
a missão dela se acabou...a sua está começando.
dissemine entre os que convivem com voce , o que aprendeu com ela.
onde ela estiver, saberá, e dirá sorrindo: "essa é a minha menina..."
bjs
lilian

Lucy Lane disse...

Obrigada Lilian, obrigada meninas. Está sendo muito difícil e é bom me sentir acolhida por vocês.
Bjs
Lu

Aline Bizotto disse...

Lucy, que dor ler suas palavras hoje.
Amo minha avó, e tenho uma ligação muito forte com ela, bem parecida com a sua e a da sua avó, pelo que vc relatou.
Aliás, foi a minha avó que cuidou de mim e da minha filha desde o nascimento, para que eu pudesse trabalhar tranquilamente e seguir com minha carreira.
O nome da minha filha é Helena, em homenagem à minha avó que tem o mesmo nome, e hoje ela tem 2 anos.
Cuidou da minha filha até o dia em que teve um AVC e ficou internada por dois meses.
Tudo ficou bem, ela está bem, mas passei terríveis momentos de imaginar sua partida, doeu muito, então imagino um pouco a sua dor.
Não a conheço pessoalmente, sou somente uma leitora do seu blog, mas gostaria de te dar um abraço bem forte agora e dizer quem desejo sinceramente que Deus, ou quem quer que vc acredite, te dê muita força e serenidade para lidar com tudo isso e com essa dor que não deve passar....
Bjs, com muito carinho.

Aline

Eu sei disse...

Lu... é a Te. PRECISO FALAR COM VC. Sério de verdade.
Bjos

Olly disse...

vc acredita se eu disser que minha vó tbm morreu neste dia, e recebi uma ligação as 19 horas? Passa no meu blog pra ver...
beijos

Olly

ludovic disse...

Lu,

as lembranças ficam, te desejo de lembrar dela e dos seus aconselhos cada vez que precise, e de estar orgulhosa de ter sido uma vovo tao boa. Ela estara sempre perto de ti, e estara sim presente ao seu casamento, dentro do coraçao de todos que a conheceram e amaram, e especialmente dentro do seu....

Com muito carinho,
Lu.

Lucy Lane disse...

Obrigada Ludinho
Um beijo